Você sabia que o ser humano é um mamífero de nascimento precoce? E que mesmo quando nascemos de nove meses somos prematuros, todos nós?
Sim, esta é uma informação básica da biologia da qual todos usualmente nos esquecemos.

Esta prematuridade não é sem consequências, pois, ela implica em que nascemos com um corpo que necessita de funcionar com órgãos e sistemas vitais incompletos.
Além de nascermos com esse corpo incompleto e tendo que “aprender” a funcionar separado do corpo da mãe, também, e pior, perdemos tudo que nos oferece a vida intrauterina: respiração e nutrição diretas, o calor, o abraço apertado, os sons conhecidos e tranquilizadores, o balanço calmante.

Ao perder a condições de vida que tem no útero – uterogestação – o recém-nascido fica relegado a viver, nos primeiros meses pós nascimento, uma vida fetal sem útero.
Essa perda provoca sofrimentos indizíveis que o psicanalista  Jacques Lacan chamou de mal-estares primordiais ligados à perda da vida parasitária, onde o bebê era suprido de todas as suas necessidades dentro do corpo da mãe.

 No entanto, existe uma maneira de poupar o bebê de tanto desconforto desnecessário. Ele pode ter muitas das condições da vida intrauterina dentro de um “útero externo” que demos o nome de bolsa canguru, pela sua relação com a função que desempenha a bolsa dos animais que conhecemos por esse nome.

O ser humano não é um marsupial – animais que cujas fêmeas possuem bolsas onde os seus filhotes prematuros aguardam o desenvolvimento necessário para dar conta da vida separada do corpo materno – mas ainda sim nos beneficiaríamos desse artificialismo, dentre tantos que são nossas invenções, para trazer ao mundo seres humanos menos sofridos em seu processo de passagem do mundo da água para o mundo do ar.

O que muitos pesquisadores como Ashley Montagu preconizam para essa passagem mais adequada às reais necessidades do pequeno humano prematuro é a utilização, como faz o povo Netsilik – esquimós do Canadá - que dará a ele condições semelhantes à que tinha antes, fazendo um desmame, não do leite, mas do útero, sua primeira morada da qual é expulso para sempre.

Luciene Godoy - Psicanalista

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